quinta-feira, 8 de julho de 2010

Uma aventura nos ares


Ontem fiz minha viagem de Campinas para Blumenau. Resolvi viajar de avião porque é mais rápido e mais seguro do que viajar de ônibus (tenho medo de acidente na estrada e de assalto). Além disto, a passagem estava mais barata que a passagem de ônibus. Outro motivo forte é o fato de que desde pequena eu sempre gostei de voar. Por muitos anos meu sonho foi ser comissária de bordo, e confesso que ainda hoje não sei por que não fui atrás deste sonho.

Enfim, ontem foi dia de voar e eu não tinha a mínima idéia das emoções que iria enfrentar. Um vôo de Campinas a Navegantes dura, em média, uns 45 minutos. De Navegantes a Blumenau vão mais uns 50 minutos. Meu vôo saía às 11h20, o que me obrigou a acordar às 7h45 (depender de ônibus é assim...) e deveria chegar em Navegantes às 12h30. Às 13h30 eu já deveria estar em Blumenau.

Viajei de AZUL por dois motivos: era o preço mais barato e o vôo saía de Campinas e não de São Paulo. O meu vôo era o 4162 com destino a Porto Alegre e escala em Navegantes. Tudo estava indo muito bem. Comi batata chips, tomei um suco e estava assistindo o programa "Irritando Fernanda Young", que estava entrevistando o Lobão, quando começamos o procedimento para aterrissar em Navegantes. Quanto estávamos quase tocando o solo o avião arremeteu bruscamente e ficou um tempão sobrevoando Navegantes. Quem está acostumado a voar sabe que esta não é uma manobra normal. Isto já tinha acontecido comigo uma outra vez, quando eu era pequena e significava uma coisa: o trem de pouso estava com problemas. Tirei os fones do ouvido e fiquei esperando o comandante se manifestar, o que logo aconteceu.

O comandante deu o seguinte recado de forma clara, calma e tranquila: o avião estava com uma pane hidráulica que eles estavam tentando resolver. Caso não conseguissem, iríamos para Porto Alegre pois o aeroporto de lá teria mais condições e segurança para lidar com o problema. Para quem tem um pouquinho de experiência, esta fala significa o seguinte: "galera, se o problema continuar vamos ter que ir a Porto Alegre porque aqui em Navegantes não há condições para fazermos um pouso de emergência". Ele salientou para que todos ficassem calmos e que não havia motivos para nos alarmarmos.

Resultado: o povo ficou todo alarmardo. Logo que ele desligou as pessoas começaram a levantar, a ir ao banheiro, a chamar os comissários para pedir água. Diversas vezes os comissários tiveram que pedir para que as pessoas permanecessem sentadas e que ficassem calmas. O comandante também fez novo contato dizendo que entendia a nossa ansiedade mas que não havia motivos para maiores preocupações. Uma senhora de idade começou a passar mal e a comissária solicitou que se tivesse algum médico a bordo que ele se apresentasse pois estavam precisando dos seus serviços. Ainda bem que havia, que ele pôde ajudar e que deu tudo certo. Era só o que faltava alguém morrer em pleno vôo...

Confesso que não fiquei com medo da pane no avião, mas da reação das pessoas. O ser humano é imprevisível e fiquei com medo de acontecer algum tumulto, de as pessoas se desesperarem e prejudicarem ainda mais a situação. Nestas situações não há muito o que fazer. Quando não temos o controle da situação só nos resta confiar nos profissionais que estão ali e ajudar da única forma possível: não atrapalhando.

Depois que o piloto nos informou sobre o problema, ele ficou algum tempo sobrevoando Navegantes e tentou pousar mais uma vez, sem sucesso. Novamente ele fez contato informando que não conseguiram resolver a pane e que teríamos que ir a Porto Alegre. A partir deste momento esqueci da TV e fiquei prestando atenção a tudo o que estava ocorrendo. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o comportamento dos comissários. Duas semanas antes desta viagem eu vi uma reportagem na internet sobre esta profissão. Eles mostraram uma simulação de pane no avião, realizada durante os treinamentos de segurança. Todos os procedimentos mostrados nesta reportagem estavam acontecendo, naquele momento, no avião, o que só confirmava as minhas suspeitas de algo grave ocorrendo.

Também comecei a prestar atenção nas reações das pessoas. Tinha uma senhora que estava abraçada ao filho (que deveria ter a mesma idade que eu), de olhos fechados e chorando. Muita gente chamava os comissários para pedir água, mas teve um cara que pediu duas cervejas (se fosse morrer pelo menos morria feliz)!!! Do meu lado tinha uma mãe com a filha de uns 7 anos. A menina assistia tv, conversava e estava alheia ao que acontecia. A mãe a distraía e em nenhum momento alarmou a filha, mas vez ou outra ela olhava para mim com muita preocupação. De vez em quando ela abraçava e beijava a filha. O cara sentando do meu lado dormia.

E eu fiquei pensando sobre a morte: será que seria esta a minha hora? Eu não estava com medo de morrer, mas de sentir dor. Até certo ponto eu estava conformada porque sempre disse que entre ônibus e avião eu preferiria morrer num avião: muito mais chique. Ônibus é pobreza total! Eu estava um pouco triste porque minha última refeição seria um pacote de batata chips: que miséria!!!. Brincadeiras à parte, fiquei pensando na minha vida, nas coisas que eu fiz, nas pessoas que amo e em como elas ficariam se eu morresse. Se fosse aquele meu momento de morrer, eu estava pronta e tranquila. Só estava triste porque ainda teria muita coisa que eu gostaria de fazer mas que teria que ficar para outra oportunidade. Fiquei pensando no porquê de temermos a morte e lembrei-me do texto Temor da Morte, de Allan Kardec, que está no livro "O Céu e o Inferno"(clique para baixar), onde ele aborda as causas deste temor. Enquanto meditava sobre o texto, chegamos a Porto Alegre.

Na hora da aterrissagem todos os sentimentos aumentaram: a senhora abraçada ao filho chorava mais, a mãe abraçava a filha e eu pedia para meu anjo da guarda estar comigo naquela hora. Por fim deu tudo certo e não foi preciso pouso de emergência. Quando o avião tocou o chão as pessoas aplaudiram e gritaram: "Graças a Deus chegamos"!! Aquela mãe abraçou mais uma vez a filha, deu um beijo em seu rosto e enxugou discretamente duas lágrimas. Achei muito prudente da parte dela não ter se desesperado e alarmado a filha. Acho que são coisas que o amor de mãe faz!

Quando desembarcamos a AZUL já havia providenciado nosso embarque num vôo da TAM para Florianópolis. Foi tudo muito rápido: desembarcamos, nos dirigimos ao balcão da TAM, recebemos nossas passagens que já estavam impressas, nos dirigimos ao embarque e entramos no avião. Simplesmente não esperamos nada. Felizmente, neste vôo correu tudo bem e ao chegarmos em Floripa a AZUL já havia providenciado dois ônibus: um para Navegantes e outro para Blumenau. Além disto, como ninguém teve tempo para almoçar a empresa providenciou um misto frio e refrigerante que foram servidos dentro do ônibus.

No caminho para Blumenau, mais uma surpresa: toca meu celular e era uma funcionária da AZUL que ligou para explicar o que ocorreu no vôo. Foi mesmo uma pane no trem de pouso. Ela também pediu desculpas pelo inconveniente e demora da viagem, mas segurança em primeiro lugar e para isto foi necessário ir até Porto Alegre. Falei que entendia a situação e que estava tudo certo. Eu acredito que máquinas podem pifar, mesmo com manutenção regular. Gostei muito do atendimento da companhia aérea. Eles foram muito profissionais, o que me impressionou visto a quantidade de reclamações que há contra as companhias.

A última surpresa foi ao chegar em Blumenau. O motorista do ônibus se recusou a parar na garagem da empresa, onde é o ponto em que todos descem. Ele não conhecia Blumenau direito e foi muito grosso com um senhor que se propôs a mostrar o caminho para ele. O pessoal do ônibus se revoltou porque a maioria não era de Blumenau e todos iriam descer na garagem. Resultado: fui até a cabine do motorista para pergundar onde, afinal, ele iria parar o ônibus. Ele começou a se alterar comigo, mas eu o interrompi e falei alto: O senhor tem a OBRIGAÇÃO de me dizer onde vai parar este ônibus para que eu possa explicar para as pessoas que não são de Blumenau e não conhecem a cidade. O motorista então, baixou a bola e explicou certinho onde ele iria parar. Felizmente era perto da garagem da empresa, o que não acarretava problema para ninguém. Junto com outras pessoas de Blumenau, orientamos o pessoal e cada um pode seguir viagem tranquilamente. No final deu tudo certo. A única coisa foi que me atrasei um pouco para chegar: cheguei em Blumenau às 18h45.

PS1: Não ganhei absolutamente nada para falar da AZUL
PS2: Dica - sempre viaje de tênis. Salto alto nem pensar. Carregar mala de salto é a maior furada. Muitas vezes o aeroporto é grande e temos que andar rápido de um local a outro. O salto só atrapalha. Tinha uma menina que tava com um saltão e que, ao chegar em Blumenau, nem conseguia mais andar. Além disto, em caso de emergência no avião, provavelmente você terá que tirar o salto. Já pensou ficar descalça numa situação adversa? É só mais uma coisa para se preocupar.

4 comentários:

Dom Moleiro disse...

Carol ,em minha longa vida já passei por muitas aventuras como essa pelos ceus do Brasil e de outros paises.Como a morte é inevitável ,não adianta chorar ,resmungar ou xingar .Numa situação como esta o único remédio é clamar por DEUS ,para que ÊLE tenha misericórida e faça acontecer o que for melhor para todos .É muito bom saber que ainda existem companhias aéreas como a AZUL , que se preocupam com seus clientes .
Beijos

Capelini disse...

Moça,
você não me conhece...eu não te conheço, mas a internet nos permite esses encontros.
Participo de um fórum sobre aviação (antes que me pergunte: não, não sou piloto, apenas gosto de aviões) e um forista (suponho seu amigo) postou o link de seu blog e aqui estou.
Não vou comentar o que você já comentou, claro.
Só uma coisa pra te dizer: deliciosa a forma como trata nossa brasileira língua portuguesa, fazendo-nos presentes ao acontecimento que vivenciou.
Parabéns!

Marcelo disse...

Olá Srta. muito intressante e real teu relato. Se tiveres msn gostaria que me adicionasse para falar contigo sobre esse voo, pois estava trabalhando nele, visto que ja foi ate publicado em um fórum de aviacao. Obrigado, Marcelo. marcelopureur@hotmail.com

Adriana disse...

Prezada Carol,

A equipe da Azul Linhas Aéreas Brasileiras gostaria de agradecer o seu relato.

Saiba que é constante a nossa preocupação com o que nossos clientes têm a dizer sobre a “Experiência Azul”.

E, tendo em vista que nosso primeiro e mais importante valor é a Segurança, somos vigilantes permanentes da qualidade e da segurança em todos os nossos voos.

Continuamos a sua disposição para eventuais esclarecimentos,

Departamento de Serviço ao Cliente
Azul Linhas Aéreas Brasileiras S/A